Encarnado e Branco

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sexta-feira, 11 de julho de 2008

A Questão da Equipa Técnica

Há alturas em que temos a felicidade de encontrar prosas que encaixam no nosso pensamento e temos só o menor esforço de transmitir a opinião de terceiros com que concordamos linha a linha. É o caso do texto desta semana da Leonor Pinhão. E assim se explica a questão dos adjuntos:

Quique Flores foi contratado pelo Benfica e, naturalmente, fez com que o Benfica contratasse uma equipa técnica da sua escolha pessoal e da sua confiança profissional. É assim que acontece com todos os treinadores e em todos os clubes que levam a sério o futebol, o trabalho do futebol e o objectivo final da competição.

No Benfica nem sempre as coisas se têm passado assim.

Em 1992, quando Tomislav Ivic foi contratado houve um escândalo de lesa-mística porque o croata não entendia a razão pela qual Toni era o seu «adjunto» pré-definido, quando o mesmo Toni, «a solo», já tinha levado a equipa a uma final da Liga dos Campeões e tinha sido campeão.

Ivic, que sabe mais de futebol a dormir que o professor Marcelo Rebelo de Sousa acordado, achava que era a altura de Toni se assumir como treinador principal noutro clube e que a presença de Toni a seu lado seria tudo menos um factor de estabilidade. Ivic queria Shéu como adjunto e com essa exigência, de cariz exclusivamente profissional, ia arranjando um lindo sarilho a Shéu.

Depois de uma batalha inglória que nada tinha de pessoal contra Toni - era apenas uma questão profissional óbvia -, Ivic atirou a toalha ao chão e aceitou Toni como seu adjunto em nome do «benfiquismo». Por finais de Outubro Tomislav Ivic estava despedido e Toni assumiu o comando da equipa.

Em 1994, quando Artur Jorge foi contratado por Manuel Damásio houve um novo escândalo de lesa-mística porque o treinador que vinha de uma série de temporadas brilhantes no Paris Saint Germain queria Octávio Machado, com quem já tinha trabalhado no FC Porto, como seu adjunto.

Mas como Octávio Machado, em termos de glóbulos, não tinha nada de «benfiquismo» a correr-lhe nas veias, não pôde ser. Artur Jorge acabou por ser substituído por Mário Wilson no comando da equipa, sendo que Wilson era (e é) um benfiquista dos sete costados e o celebrado autor da velha frase: «Quem treinar o Benfica arrisca-se a ser campeão», ainda que lhe faltasse explicar o mais importante… «desde que os responsáveis do clube não sejam totalmente idiotas».

Já no século XXI, quando o Benfica se lembrou que, afinal, talvez não fosse má ideia ir buscar José Mourinho à União de Leiria, Mourinho optou por ir para o FC Porto onde lhe davam carta branca para escolher a sua equipa técnica em vez de regressar à Luz onde lhe era imposto, como condição, o nome de Jesualdo Ferreira para seu adjunto. Naturalmente em nome do actualmente provado e reprovado «benfiquismo» do professor.

Em 2008 - ou seja, hoje - passou-se exactamente a mesma coisa. Ainda não se sabia o nome do treinador que haveria de ser contratado, ainda Eriksson pensava se seria melhor Lisboa ou Guadalajara, ainda as primeiras páginas dos jornais desportivos se engalanavam com um desfiar de nomes de possíveis treinadores para o Benfica e já era anunciada, com pompa mil por cento «benfiquista», a constituição da «equipa técnica» de adjuntos, toda ela formada na Universidade Cosme Damião.

Fernando Chalana estava garantido, Diamantino Miranda estava prestes a desvincular-se do Olhanense e Carlos Mozer, campeão em Angola, iria mandar os seus negrinhos às malvas porque o sonho de regressar ao Benfica na posição de adjunto de sabe-se lá quem era mais forte do que todas as realidades.

E, como isto é futebol, ganhou uma vez mais o Brasil..

Mozer, carioca de gema, produto do Flamengo, essa escola da vida, titular do «escrete» anos a fio, não arriscou a sua vida profissional «a solo» por um projecto de contornos indefinidos em nome do «benfiquismo» amplamente demagógico.

Fez bem em Mozer em deixar-se estar onde está. Em Luanda, mais precisamente.

Se tivesse ido para o Benfica estaria ao lado de Fernando Chalana e de Diamantino Miranda, ambos trajando à civil, encostados à linha, assistindo de mãos nos bolsos - como se vê nas fotografias - ao primeiro treino ministrado pelo espanhol Quique Flores.

Quique Flores vem de outro mundo profissional.

Foi convidado para ser treinador do Benfica o que o deve ter, obviamente, entusiasmado. É um grande nome, o Benfica. Um dos maiores. Quique é relativamente jovem e faltam-lhe títulos na folha. Quer ganhar. Pelos vistos tem uma mentalidade pragmática. Não deve ser muito sensível a teoria de que é preciso recorrer às velhas glórias para «incutir mística na cabina». Deve ser mais sensível à teoria «com bons jogadores, e quantos mais bons jogadores melhor, a coisa vai lá».

Quanto à mística, trata-se de ganhar ao domingo.

Embora em Portugal possa ser às sextas, aos sábados, aos domingos e até às segundas-feiras, desde que seja esse o calendário conveniente para a Olivedesportos, essa entidade de contornos definidos que manda no futebol português, que lhe é credor, e que manda no Benfica porque o Benfica não se consegue libertar política e financeiramente da Olivedesportos.

E enquanto assim for, o Benfica não vai a lado nenhum (é uma opinião pessoal).

A todas estas questões nativas é, só pode ser, alheio Quique Flores. Seria bom que ninguém lhe explicasse o enredo das duas últimas duas décadas para que não o desmoralizassem logo à partida. É que a luta é desigual e tramada.

Sendo inocente, mais valor tem. E ao fazer-se acompanhar por uma equipa técnica escolhida por si deu sinal de personalidade forte. Sejam pois bem-vindos os senhores Franc Escribá, Pako Ayesteran e Emílio Alvarez, que de quem nunca, nós benfiquistas, ouvimos falar. Mas não é isso que importa.

Muitos dirão que Quique Flores começou mal hostilizando as velhas glórias do clube. Com todo o respeito por Chalana e Diamantino, direi que Quique Flores começou bem. Fez valer o seu ponto de vista profissional onde muitos consagrados falharam em nome do compromisso e do evitar de chatices. Vamos lá ver o que acontece.

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posted by J G at 5:00 da tarde

3 Comentários:

A mim custa-me a acreditar que o Chalana e o Diamantino não soubessem já ao que vinham, como já admitiu o diamante e pelo Ayestan. Mas isto no SLB fazem-se histórias da Carochinha de coisas bem simples. Neste caso, à falta de contratações ou disparates saidos da boca do LFV (anda muito calado, deve vir tempestade), pega-se no que fazem os treinadores adjuntos do SLB.
O anterior paragrafo não invalida que eu esteja de acordo com a Leonor Pinhão (nem sempre estou, apesar de a reconhecer como grande defensora da mistica), especialmente na questão da transmissão de mistica, que va-se la saber porque, ainda se acredita ser feita por treinadores adjuntos, secretarios tecnicos, roupeiros etc, enquanto se pede aos deuses para que o Luisão vá embora, se chama velho ao Petit e, pasmem-se, se diz que o capitão, titular da selecção não tem lugar no SLB.
Blogger Constantino, at 5:24 da tarde  
Excelente artigo, nada a acrescentar... e vale a pena reler mais do que uma vez.
Anonymous Anónimo, at 8:14 da tarde  
Já tinha tido oportunidade de ler este artigo, da não consensual Leonor Pinhão, concordo plenamente na afimação quando refere quem manda no futebol português é a Oliverdesportos.
Sendo esta a realidade do futebol português nos próximos, será que faz sentido avançar com a Benfica TV?
Na minha opinião, não!Voto contra!
Pois o futebol será sempre transmitido pela a Sportv ou por um canal em aberto, as modalidades começam a ter destaque na Sportv2, para ver treinos da equipa principal de futebol, normalmente toda a gente está a trabalhar a essa hora, para jogos de futebol de juniores, juvenis e infantis, só estou a ver adesão dos pais e familiares desses jogadores, portanto fracasso previsto!!!
Com este $monopólio$ do futebol, vamos continuar a ter jornadas a durarem 4 ou 5 dias...que maravilha este futebol!
Pensava que as equipas quando começam o campeonato jogavam para vários objectivos, para ser campeão, competições europeias, manutenção, mas para a Oliverdesportos e para a Liga, sim por esta ordem não me enganei, é só nas últimas duas jornadas, assim vai o futebol português.
Blogger sempresente, at 12:26 da tarde  

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