sábado, 11 de novembro de 2006
Valdano, Tão Bom a Escrever como a Jogar
No princípio era a bola |
Duas portas abertas |
Por jorge valdano |
Como as equipas se fecham por dentro com dois pivots centrais a única maneira de passar ao ataque é pela porta lateral. Messi pela direita e Ronaldinho pela esquerda são jogadores que, por terem o ponto de partida nas laterais, lembram aos adversários do Barça que a largura do campo que devem defender mede setenta metros. No Real Madrid Robinho mata menos do que ameaça, mas por arrancar de fora tem também a virtude de criar perigo e aumentar o campo. São falsos extremos, mas com isso conseguem, pelo menos, preocupar. Olhemos para o Atlético de Madrid, que desde que perdeu Máxi e Petrov não pára de chocar pelo meio, como essas moscas que tentam atravessar os vidros obsessivamente e sem êxito. Nenhuma equipa entendeu melhor do que o Sevilha que, para atacar, há que ir pelos espaços dos flancos. Entram pela casa dentro graças à velocidade deslizante de Navas e à gestão dos tempos de Adriano, para não falar da criativa contribuição dos laterais. Foi por aí que já subiram ao cume da tabela. O No entanto, algo grave se passa no futebol (Cap. 1) quando uma equipa que emprega meios nobres para conseguir o triunfo alegra a tantos quando não o consegue. Os medíocres só atacam, em Manada e fora do campo, para se defenderem da excelência. Para |
Quando o descanso apanhava táxis Sempre houve jogadores que pensavam e jogadores que corriam. Mas houve um tempo em que os papéis eram demasiado claros. Estreei-me na primeira divisão no Newel`s Old Boys, de Rosário, Argentina, aos dezoito anos, e entendi muito rapidamente que nas equipas existiam castas. O primeiro treino da semana consistia em dar três voltas a uma estrada que circundava o hipódromo da cidade. Quando o treinador nos perdia de vista, ao dobrar a primeira curva, as três figuras da equipa apanhavam o táxi de um amigo para saírem apenas no extremo oposto, apenas uns metros antes de poderem ser vistos novamente pelo treinador. De dentro do táxi davam ânimo aos que corriam gritando-nos «corram burros», e coisas assim. Como o futebol é emulação, nós jovens sonhávamos chegar a ser grandes figuras para podermos, um dia, treinar de táxi. Já sei que esta história é pouco edificante em termos profissionais, mas serve para demonstrar o escasso prestígio que tinha correr entre a comunidade futebolística. A ajuda da ciência, um maior sentido de disciplina e a tremenda exigência competitiva foram-nos levando até ao outro extremo. Olhem agora este futebol atlético, de jogadores cada vez mais obedientes e tácticas repressivas, nas quais oitenta por cento do esforço consiste em manietar o adversário e os outros vinte em aproveitar alguma distracção para lhe cravar, a toda a velocidade, o traiçoeiro punhal do contra-ataque. Algo grave se passa no futebol (Cap. 2) para que jogadores do talento de Ronaldo ou Ronaldinho, que noutros tempos treinaram na carroça, sejam hoje contestados ou criticados por não serem suficientemente intensos. A qualquer momento, um «Gatuso» destes dias passará por eles a toda a velocidade ao grito de «corram preguiçosos». Sei de muitos que aplaudiriam.